É possível desenvolver dependência da marijuana? Esta é a pergunta mais recorrente no eterno debate em torno do consumo de cannabis e das suas possíveis consequências, que se prolonga há vários anos. Durante décadas, o potencial aditivo desta planta foi utilizado como argumento para a sua proibição. Embora a cannabis não seja uma substância inofensiva, é fundamental compreender como atua no organismo para perceber corretamente os seus efeitos.
A marijuana é a substância ilegal mais consumida no mundo. Além disso, nas últimas décadas, a ideia da cannabis como um produto natural e não prejudicial para a saúde tem vindo a ganhar força entre a população. Por esse motivo, vamos aprofundar o tema da dependência da marijuana e dos usos desta substância.
Diferenças entre tolerância, dependência e adição à marijuana
Estes três termos têm sido utilizados de forma indiscriminada durante muito tempo, mas a verdade é que representam conceitos diferentes sobre a forma como uma substância pode afetar o organismo.
- Tolerância: refere-se à capacidade de sentir um efeito maior ou menor ao consumir a substância. Um aumento da tolerância significa que já não produz a mesma reação que no início, o que leva a um aumento da dose.
- Dependência: está relacionada com a conhecida síndrome de abstinência, ou seja, quando se deixa de consumir surgem uma série de reações físicas e mentais. A intensidade dessas reações depende da substância. Entre os sintomas mais comuns da síndrome de abstinência encontram-se:
- Ansiedade
- Perturbações do sono
- Perda de apetite
- Irritabilidade
- Adição: é uma doença crónica do cérebro que se caracteriza pelo consumo compulsivo de uma substância, apesar das consequências negativas ou da interferência no dia a dia, podendo colocar em risco a saúde da pessoa. Dentro do padrão de comportamento aditivo destacam-se:
- Um aumento do consumo muito superior ao previsto.
- Sentimento de frustração por não conseguir deixar de consumir.
- Torna-se uma obsessão, ocupando uma parte importante da vida do utilizador.
- Afeta a vida social, reduzindo a atividade laboral, social e recreativa.
- Perda de controlo, incapacidade de limitar o consumo apesar de reconhecer os prejuízos.
- Negação do consumo excessivo ou adoção de uma postura defensiva.

Cannabis e dopamina
Para compreender como este processo ocorre, é importante saber de que forma o THC ativa o sistema de recompensa do cérebro. Quando o THC entra no organismo, ativa os recetores canabinoides, localizados em diferentes regiões do cérebro, afetando as células nervosas que ativam o sistema endocanabinoide. Por esse motivo, influencia áreas como o pensamento, a concentração, o movimento, a coordenação e a perceção.
Quando os neurónios sintetizam a substância, libertam dopamina, que chega, entre outras áreas, ao núcleo accumbens ou centro do prazer. Quando este centro é estimulado de forma excessiva e repetida, o cérebro reage reduzindo o número de recetores para compensar. É assim que se desenvolve a tolerância.
Da mesma forma, este mecanismo pode levar à perda de interesse por atividades como o desporto, o sexo ou a alimentação, que produzem níveis de prazer muito inferiores. Segundo os estudos, este comportamento pode conduzir a um uso abusivo, aumentando o risco de desenvolver dependência. Ainda assim, o potencial de adição da cannabis é muito inferior ao de outras substâncias.
Tolerância e dependência da marijuana
De um modo geral, quando existe um consumo habitual e continuado, acaba por ser necessário aumentar a dose para obter o mesmo efeito. Quando o uso se torna abusivo e prolongado no tempo, pode gerar dependência da cannabis, embora o nível de dependência seja consideravelmente mais leve. Estima-se que cerca de 5% a 10% dos consumidores de cannabis se enquadrem nestes critérios.
Em algumas situações de consumo abusivo e prolongado, o utilizador pode sofrer da chamada síndrome de abstinência ao interromper o consumo. Dessa forma, sente a necessidade de aumentar a quantidade da substância para se sentir bem.
Entre as pessoas que podem desenvolver dependência da cannabis destacam-se aquelas que iniciam o consumo precocemente, especialmente durante a adolescência, e as que apresentam uma elevada frequência de uso.

Adição à marijuana
A adição à cannabis pode ocorrer em alguns casos em que o consumo se torna abusivo. Embora tenha potencial aditivo, este é relativamente baixo quando comparado com outras substâncias de uso comum e socialmente aceites, como o álcool ou a nicotina. Ainda assim, existe a possibilidade de desenvolver o chamado transtorno por consumo de marijuana.
As estatísticas demonstram que a marijuana gera menos adição, ocorrendo apenas em cerca de 10% dos casos. Este valor aumenta para 16,5% entre aqueles que começaram a consumi-la durante a adolescência. No caso do álcool, a taxa de adição sobe para 15%, seguida da cocaína com 17%, da heroína com 23% e da nicotina com até 32%.
O mesmo se verifica nas admissões para tratamento de dependências. 35,2% correspondem ao álcool, 28,9% à cocaína e 18,4% à cannabis. Além disso, considera-se que a adição pode ser provocada por vários fatores, tais como:
- Predisposição genética.
- Contexto social, cultural, económico e político.
- Fatores pessoais como stress, traumas ou ambiente familiar.
- Forma e frequência de consumo.
- Estilo de vida.
A cannabis não provoca o mesmo nível de dependência e adição que outras substâncias, mas um uso excessivo e prolongado pode ter consequências negativas. Atualmente, existem diferentes terapias e centros especializados no tratamento da dependência. O primeiro passo nestes casos é que a pessoa com adição à marijuana reconheça o problema e procure informação sobre como resolvê-lo, de forma a poder procurar ajuda.



